Sexo e género são duas coisas diferentes
Deuses do Amor - Última atualização: 23 de fevereiro de 2026
As pessoas usam frequentemente os termos “sexo” e “género” como se fossem sinónimos, mas isso não é correto. Sexo e género são conceitos distintos, e compreender essa diferença é essencial — inclusive para interpretar de forma crítica o que acontece à nossa volta, como notícias falsas e teorias conspiratórias sobre alegadas “ideologias de género”.
Sexo e género: conceitos diferentes
O sexo refere‑se às características biológicas e físicas de uma pessoa — masculino, feminino ou intersexo. Geralmente, o sexo é atribuído no momento do nascimento com base em características fisiológicas específicas, sobretudo a genitália externa e a composição cromossómica (por exemplo, mulheres com dois cromossomas X). Esses dados compõem o chamado sexo biológico.
O género, por outro lado, diz respeito à forma como uma pessoa se identifica internamente. Ao contrário do sexo, o género não é determinado por cromossomas, hormonas ou anatomia. Não se trata de uma divisão rígida entre masculino e feminino, mas sim de um espectro, no qual cada pessoa se reconhece de maneira única.
Na maioria dos casos, a identidade de género está alinhada com o sexo biológico. No entanto, a identidade de género é reconhecida juridicamente como um direito fundamental. O Tribunal Constitucional italiano, por exemplo, afirmou na sentença n.º 180/2017 que a identidade de género constitui um direito fundamental da pessoa.
Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a identidade de género é “o sentimento interno e profundo de uma pessoa de ser homem, mulher e/ou outro género (por exemplo, género fluido ou género queer)”. Já a expressão de género corresponde à forma como essa identidade é manifestada externamente — por meio do nome, pronomes, roupas, comportamento, voz ou aparência.
Uma pessoa pode, por exemplo, identificar‑se como não binária e ainda assim expressar‑se externamente de forma masculina ou feminina. Identidade e expressão de género não são necessariamente a mesma coisa.
Orientação sexual
Além do sexo e do género, existe a orientação sexual, que diz respeito à atração romântica e/ou sexual por outras pessoas.
É importante reforçar que a orientação sexual não está relacionada com a identidade de género. Uma pessoa trans pode ser heterossexual, gay, lésbica, bissexual ou ter qualquer outra orientação. Da mesma forma, uma mulher lésbica pode ter uma expressão de género feminina ou masculina — isso não altera sua identidade.
Cada pessoa possui uma identidade de género, pois todos nós nos percebemos de alguma forma. E somente o próprio indivíduo pode definir quem é.
Masculino, feminino e construção social
A dificuldade em compreender a diferença entre sexo e género está relacionada ao facto de o género também ser uma construção social. Ele envolve papéis, normas e expectativas que as sociedades associam ao que consideram “masculino” ou “feminino”.
Na sociedade ocidental contemporânea, essas duas categorias são frequentemente vistas como as únicas possibilidades, o que é problemático por duas razões principais:
- Existem mais identidades de género do que apenas duas formas de genitália externa.
- Mesmo biologicamente, nem todas as pessoas se enquadram num modelo binário.
Há pessoas que nascem com características sexuais atípicas, como variações cromossómicas ou genitais. Essas pessoas são chamadas de intersexo — termo que não indica doença, mas diversidade biológica. Estima‑se que quase 2% da população mundial seja intersexo, número superior à população total de alguns países.
Algumas pessoas só descobrem que são intersexo na puberdade ou na vida adulta. A intersexualidade pode manifestar‑se de várias formas: genitália externa atípica, órgãos reprodutores internos diferentes ou combinações cromossómicas diversas.
Pessoas que se identificam com o género atribuído no nascimento são chamadas de cisgénero. Já aquelas que não se identificam dentro do binário homem/mulher podem reconhecer‑se como transgénero, não binárias, género fluido, género queer, entre outras identidades.
A Organização Mundial da Saúde define género como “as características socialmente construídas de mulheres e homens, incluindo normas, papéis e relações, que variam de sociedade para sociedade e podem mudar ao longo do tempo”.
Papéis de género ao longo do tempo
Os papéis de género não são universais nem imutáveis. Em algumas sociedades, são extremamente rígidos; noutras, mais flexíveis. Há países onde as mulheres são legalmente proibidas de determinadas atividades e outros onde, apesar da ausência de proibições formais, continuam a existir fortes pressões sociais.
Esses papéis podem mudar — para melhor ou para pior. Basta lembrar países como o Afeganistão ou o Irão, onde mulheres que antes estudavam e trabalhavam livremente passaram, em poucos anos, a enfrentar restrições severas impostas por leis religiosas transformadas em leis estatais.
Em contrapartida, mudanças positivas também ocorreram. Em Itália, por exemplo, até meados do século XX era comum que mulheres de determinadas classes sociais não trabalhassem nem frequentassem universidades. Com as transformações sociais e culturais, essas barreiras começaram a cair.
Género, saúde e linguagem
As relações entre género e saúde são complexas. Sistemas de saúde não são neutros e, muitas vezes, reproduzem estereótipos de género. A Organização Mundial da Saúde destaca que preconceitos podem influenciar o acesso a cuidados médicos, a qualidade do atendimento e até a forma como profissionais se dirigem aos pacientes.
Respeitar a identidade de género de uma pessoa significa respeitar a forma como ela se reconhece e se expressa.
Os termos relacionados à identidade de género evoluem com o tempo. A expressão “identidade de género” surgiu na década de 1960 e inicialmente referia‑se apenas ao sentimento de pertencer ao masculino ou feminino. Hoje, o conceito é mais amplo.
Algumas palavras também mudaram de significado e aceitação. O termo “transexual”, por exemplo, era antes associado exclusivamente a cirurgias, o que já não corresponde à compreensão atual. Já o termo “queer”, historicamente usado como insulto, foi ressignificado e hoje é utilizado de forma afirmativa por muitas pessoas.
Identidades de género: exemplos
Os rótulos podem ajudar no autoconhecimento, mas nem todas as pessoas se sentem confortáveis com classificações rígidas. Ainda assim, alguns termos comuns incluem:
- Agénero: pessoa que não se identifica com nenhum género.
- Andrógino: identidade ou expressão que mistura ou neutraliza características masculinas e femininas.
- Bigénero / Género fluido: pessoa cuja identidade varia ao longo do tempo.
- Cisgénero: pessoa cuja identidade corresponde ao sexo atribuído no nascimento.
- Não binário: termo abrangente para identidades fora do binário masculino/feminino.
- Transgénero: pessoa cuja identidade de género difere do sexo atribuído ao nascer.
- Homem trans / Mulher trans: pessoas trans que se identificam como homem ou mulher.
- Intersexo: pessoa com características sexuais biológicas que não se enquadram no padrão binário.
- Dois Espíritos: conceito presente em algumas culturas indígenas norte‑americanas, referindo‑se a pessoas que integram identidades masculinas e femininas.
As identidades de género são diversas, pessoais e legítimas. Compreendê‑las é um passo fundamental para uma sociedade mais informada, justa e respeitosa.
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