Obras como a Playboy da época: assim nasceu o mito do estupro
Deuses do Amor - Última atualização: 27 de fevereiro de 2026
AA partir do Renascimento, a Igreja passou a permitir que artistas recorressem à herança clássica de mitos e lendas greco-romanas. Esse movimento, aparentemente erudito, funcionou também como um álibi para pintar e esculpir corpos femininos nus e, mais do que isso, para transformar a violência sexual em gestos gloriosos, heroicos e esteticamente admirados. Assim nasce e se consolida o chamado mito do estupro heroico.
A culpabilização da vítima: o caso de Medusa
Quem estudou mitologia no ensino médio provavelmente se lembra de Medusa como uma criatura monstruosa, com serpentes no lugar dos cabelos e o poder de transformar homens em pedra apenas com o olhar. O que raramente é ensinado, no entanto, é por que Medusa se tornou um monstro.
Segundo versões menos difundidas do mito, Medusa era uma jovem sacerdotisa no templo de Atena e sua favorita. Como símbolo de pureza, havia feito um juramento de castidade. Poseidon, deus do mar, a violou dentro do próprio templo — o Partenon. O resultado foi devastador: Medusa, apesar de vítima, passou a ser considerada impura, indigna de servir a deusa ou de se casar, refletindo o antigo mito da virgindade como valor absoluto.
A punição, porém, não recai sobre Poseidon. É Medusa quem Atena castiga: exilada, transformada em monstro, condenada à solidão e ao horror. Poseidon, um dos deuses mais poderosos do panteão, permanece impune. O mesmo acontece com Hades, que rapta e viola Perséfone, ou com Zeus, que se disfarça de touro, cisne ou chuva de ouro para violentar mulheres como Europa e Danae. Nenhum deles é responsabilizado.
Ao contrário: esses atos foram amplamente celebrados pela arte. Estátuas e pinturas glorificam estupros e guerras, dois dos temas mais populares de determinados períodos históricos. O estupro, em especial, foi tratado como tema refinado, excitante e simbólico — não como crime, mas como evento fundador, épico ou divino.
Estupro como gesto heroico
Nas representações artísticas, cenas de violência sexual são romantizadas e suavizadas, ocultando sua brutalidade. Um ato extremo e violento passa a ser apresentado como exercício de um “direito divino”. Essa lógica ecoa até hoje: vítimas desacreditadas, culpabilizadas pela roupa, pelo horário ou pelo simples fato de existirem em espaços públicos.
Não é coincidência que nenhuma artista mulher tenha representado o estupro de forma erótica, heroica ou romântica. Artemisia Gentileschi, por exemplo, retratou repetidamente cenas de violência sexual, mas sempre a partir da perspectiva da vítima, enfatizando vulnerabilidade, dor e resistência. Suas obras revelam consciência do poder das imagens — imagens não apenas refletem a realidade, mas ajudam a moldá-la.
A arte como veículo da cultura do estupro
Durante séculos, a nudez esteve praticamente ausente da arte ocidental, especialmente após a cristianização do Império Romano. Com o Renascimento e o resgate dos mitos clássicos, abriu-se uma verdadeira caixa de Pandora: histórias repletas de erotismo, perseguições e violações tornaram-se aceitáveis sob o pretexto de alegoria cultural.
A Igreja, embora oficialmente monoteísta, tolerou — e muitas vezes incentivou — esse retorno, especialmente quando tais obras serviam a interesses políticos ou eram oferecidas como presentes a clérigos e nobres. Assim, artistas e patronos ganharam licença plena para ilustrar orgias, raptos e estupros, legitimados pela antiguidade clássica.
Essas imagens transmitiam mensagens muito claras: o homem como conquistador, dominante e violento; a mulher como objeto, submissa e silenciosa. O chamado “estupro heroico” reforçou a ideia de que a virilidade masculina está associada à agressividade sexual, enquanto a feminilidade é definida pela passividade.
O Rapto das Mulheres Sabinas
Entre as representações mais emblemáticas está O Rapto das Mulheres Sabinas, de Nicolas Poussin (1630). A obra retrata um episódio fundador da Roma Antiga: diante da escassez de mulheres, Rômulo organiza uma festa e, a um sinal, os romanos sequestram as mulheres sabinas para garantir o futuro da cidade.
A crítica de arte tradicional frequentemente descreve a cena como um gesto patriótico e heroico. As mulheres sabinas, posteriormente vistas como mães do povo romano, acabam integradas à narrativa gloriosa da fundação de Roma. O próprio termo raptus, na Roma Antiga, significava “tirar à força” e estava mais ligado à ideia de propriedade do que à violência sexual como a compreendemos hoje.
Poussin mostra mulheres em desespero, crianças abandonadas, idosos aflitos. Ainda assim, a composição equilibrada, o controle emocional e a presença de um casal em aparente aceitação suavizam o horror do acontecimento, normalizando-o. A violência é esteticamente organizada, tornando-se aceitável.
Olhar criticamente para a arte
Queimar telas renascentistas? Não.
Mas é urgente compreender o que estamos vendo. A arte não é neutra. Ela constrói narrativas, legitima valores e reforça estruturas de poder. Entender como o estupro foi historicamente romantizado e glorificado é um passo essencial para desmontar a cultura que ainda hoje responsabiliza vítimas e protege agressores.
Olhar para essas obras com consciência crítica não diminui seu valor artístico — pelo contrário, amplia nosso entendimento sobre o papel da arte na construção social da violência de gênero.
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