Eros e Ágape: contraste ou complementaridade?
Deuses do Amor - Última atualização: 26 de janeiro de 2026
A pulsão busca apenas a satisfação imediata. Para ela, o objeto é secundário, variável, intercambiável — possui apenas valor instrumental.
Eros, diferentemente, entra no campo do amor quando seu objeto deixa de ser anônimo. Por um tempo, ele se torna único e indispensável. É o desejo por aquela pessoa, cujo corpo e presença se deseja até o limite da obsessão.
O impulso erótico é, portanto, apropriativo: nasce de uma necessidade de gratificação que tem algo de “narcisista”, centrada no próprio ego.
Nesse movimento, o outro é reduzido ao papel de objeto a ser usufruído — ainda que, por um período, seja superestimado, revestido de qualidades tão extraordinárias que justificam o interesse exclusivo. Mesmo assim, tal exaltação não rompe o círculo do narcisismo. Continua sendo o fenômeno do “eu me amo em você”: o outro torna-se espelho da própria imagem idealizada. Não é realmente visto pelo que é.
Quando o real do outro se revela — caso apenas Eros esteja em jogo — sobrevêm a decepção e o apagamento daquele brilho que antes parecia único.
Ágape: o amor que doa, não o que toma
Ágape, termo de origem cristã presente na versão grega dos Evangelhos, corresponde ao latino caritas, caridade.
É um amor que não tenta incorporar o outro ao próprio ego, mas o reconhece e valoriza exatamente como ele é, de forma profundamente desinteressada.
É um amor livre, que independe da posse ou de retribuição.
Um amor que pode voltar-se até para quem faz mal, não corresponde, ou erra.
Seu impulso não é receber, mas dar — não coisas, mas a si mesmo.
Por isso, Ágape é visto como o modelo do amor divino: um amor que se oferece, que se entrega, que se faz presença para salvar o outro. É um amor absoluto, incondicional, totalmente dedicado ao outro em sua diferença irredutível.
Por que contrastar Eros e Ágape?
De um lado, o desejo de posse.
Do outro, o dom de si.
Narcisismo versus altruísmo radical.
Mas essa oposição só faz sentido se imaginarmos as duas formas de amor completamente separadas. Quando a complementaridade entre elas é retirada, ambas podem degenerar:
- Um Eros radicalizado se transforma em materialismo afetivo: relações serializadas, descartáveis, marcadas pela decepção permanente — fenômeno tão visível na cultura contemporânea.
- Um Ágape sem Eros, por sua vez, pode criar uniões afetivamente sólidas, mas sem o “húmus vital” da troca entre corpos, sem o fogo do desejo.
Filos: o contraponto mais adequado
Faz mais sentido contrastar Eros com Philos, o amor-amizade, fraterno.
São inconciliáveis porque o primeiro é erótico, e o segundo, por definição, não é.
Ágape, ao contrário, não é necessariamente dessexualizado.
Pode manifestar-se como amor ao próximo, mas também pode se entrelaçar com Eros, tocá-lo e elevá-lo.
Quando Eros encontra Ágape
Eros é fortalecido pelo Ágape.
É no dom de si — no gesto gratuito e amoroso — que o ser humano alcança sua forma mais plena de satisfação.
A plenitude não está apenas no desejo de possuir o outro, mas na capacidade de encontrá-lo em sua diferença, para além de qualquer idealização.
Quando o impulso erótico é iluminado pelo amor doação, o encontro deixa de ser imaginário e torna-se verdadeiramente humano.
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